outubro
“Encontrei João quase que por acaso. Era uma dessas noites que caminhava sem destino à procura de um sósia. Entrava nos alojamentos dos mendigos e tomando toda a pouca coragem que possuo, conferia um a um os sujeitos. Tachavam-me como louco. Não tiro a razão deles. A minha atitude era facilmente mal interpretada. Em algumas oportunidades, era visto como gay. Foi muito complicado convencer João a fazer parte do meu plano.
“Estava na areia da praia aqui pertinho. Havia várias pessoas deitadas, próximas umas das outras, num instinto de defesa. João, pelo contrário, estava sozinho. Deitado sobre um banco de concreto, distante de todos os outros. Abordá-lo foi, de certa maneira, mais fácil que interagir com todas as outras pessoas. É incrível que tenhamos que passar por situações escabrosas para, ao fim, encontrarmos a solução de maneira razoavelmente simples. Se soubéssemos os nossos destinos…
“Bem, não vou me afastar do assunto. Fui falar com João, ele pensou que eu estava querendo alguma droga, respondi-lhe que não. Gostaria apenas de conversar com ele. Então ele achou que eu era gay. Quando eu lhe expliquei o plano inteiro, ele teve certeza de que eu era louco.
“A minha ideia era simples. Precisava de alguém para morrer por mim. A primeira reação dele foi de espanto. A segunda foi: “não quero morrer”. É incrível isso. As pessoas têm um amor pela vida que não consigo entender. Vivem vidas miseráveis, sem nenhuma perspectiva, sobrevivendo da caridade alheia ou de pequenas contravenções e, mesmo assim, querem continuar vivendo. Muitas vezes nem sabem por quê. Apenas creem que não é o correto. Uma óbvia herança religiosa. Nem sabem o que acontecerá se morrerem, mas preferem a vida de imensas privações a contrariar seus dogmas internos. Não me encare como um religioso de uma seita absurda. Não é isso. Apenas é uma questão de lógica.
“Por outro lado, não cheguei para João e ofereci apenas a morte. Claro que não. De certa forma, esperava essa reação deles. Propus-lhe, quando pude falar, uma espécie de paraíso terrestre. Em troca, claro, da sua morte. Não o enganei. Não menti em nenhum momento. Fui o mais sincero e correto possível. Ia proporcionar-lhe qualquer prazer que estivesse ao meu alcance. Alugaria uma casa onde quer que ele desejasse. Bancaria todos os seus sonhos de consumo, daria conforto. Em troca, pedi apenas que, em um dia que seria acordado logo de início, ele puxasse o gatilho. Ele se assustou – o que não foi exatamente uma surpresa para mim. Todo o meu plano continha essas variáveis. Deixei-o sozinho, falando que voltaria no outro dia para encontrá-lo no mesmo lugar. E que, se ele não tivesse na noite seguinte, voltaria diariamente, no mesmo horário.
“Ele desapareceu, é claro. O tempo passou e ele não reaparecia. Também não me surpreendi. Imaginei que, apesar da vida ruim que ele levava, não passava pela cabeça dele se matar – ou simplesmente morrer. É um instinto humano que eu, repito, não entendo. Mas, não saiamos do assunto principal.”


Não sei se o receio da morte é instinto ou é só medo do desconhecido.
Por pior que seja a vida por aqui, pelo menos é uma desgraça que se conhece, que não surpreende. Quem não se lembra do ditado “nada é tão ruim que não possa piorar?”
Acho que é o mesmíssimo motivo que mantém as pessoas em empregos medíocres, casamentos falidos e tantas outras situações igualmente ruins. Mas o João quis pagar pra ver como era o “lado de lá”. Ou seria melhor dizer que decidiu “receber pra ver?”
Nem santo, nem safado, nem fluminense… Pelo menos até aqui. Estou curiosa pra saber qual é a do João nessa história.
João, João Ninguém.
hummmm Explicou tudo!