outubro
“Demorou, mas ele reapareceu. Aconteceu o que eu esperava. Ele passou pela fase de negação, depois estranhamento, costume e, depois de um pequeno contratempo, a aceitação.
“Seria complicado convencê-lo a morrer se ele tivesse uma vida ótima, com segurança e planejamento para a vida toda. Mas é fácil deduzir que, mais dia, menos dia, ele se meteria numa disputa de vida e morte, saindo mais propenso a aceitar a minha proposta. Foi o que aconteceu. Ele brigou com um outro mendigo, o sujeito puxou uma faca, ele conseguiu pegá-la e o matou. João me contou isso muito tempo depois. Quis saber apenas por uma espécie de mórbida curiosidade, já que o motivo pelo qual ele aceitou a minha ideia não interferiria nos meus planos.
“O que ele queria era uma casa na praia – qualquer uma. Sair da cidade era a minha condição para ele participar e ele mesmo havia sugerido isso. Não queria encontrar com ninguém das ruas. Ótimo. Levei-o para o litoral norte. Aluguei por uma temporada uma casa, perto de uma praia escondida e o deixei lá. Mandava dinheiro e não me metia no modo como ele levava a sua vida.
“Pedi apenas que manipulasse um produto químico que eu deixei lá para que ele, aos poucos, perdesse as digitais. Fui lá poucas vezes e, nessas poucas, fiquei assustado com a extrema desarrumação da casa. Mas isso não importava. Combinamos a data, disse que iria apanhá-lo com alguns dias de antecedência para que as pistas fossem diluídas. E ele teria que cometer suicídio com uma arma que eu tinha em casa.
“Quando fui buscá-lo, me surpreendi com as nossas semelhanças. Ele, realmente, parecia comigo. Não muito alto, pele clara, mas não demais, cabelos curtos, olhos castanhos ordinários, traços medianos. Éramos sujeitos comuns.”


Sem participações.... Ainda.
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