outubro
“Tudo ocorreu conforme o planejado. Até a noite escolhida. Lembro que fazia um calor sobrenatural. Comprei roupas para ele iguais às minhas. Sairia do prédio pela porta dos fundos, que cai numa ruazinha tranquila e sem saída. Estava tudo pronto para dar certo. Preparei o revólver e esperamos o horário agendado. Tinha que ser bem tarde para haver menos gente acordada. Obviamente ele não conseguiu dormir. Eu também não.
“Ficamos, um em frente ao outro, mais ou menos como estamos agora, acordados, em silêncio, ansiosos. Um pouco antes da hora, entretanto, ele se levantou e falou que não queria mais. Tinha cogitado essa hipótese, mas não a levei a sério. Foi um erro meu, admito. Pensei que seria algo natural, que João encararia a morte como o preço a se pagar pela boa vida que tinha recebido nos últimos tempos. Mas, não, ele era um mal agradecido. Aceito que fiquei um pouco nervoso. A arma estava ao meu lado. Não deixaria com ele até o momento, porque não queria que ele tentasse qualquer gracinha. Então, me levantei já com o revólver em punho e disse-lhe bem baixinho, mas com uma clareza e autoridade que não teriam como contra-argumentar: ele iria se matar, mesmo que não quisesse, mesmo que fosse necessário eu fazer isso por ele.
“João começou a chorar, disse que estava com medo, que isso era errado. Eu engatilhei a arma e mandei-o levantar. Ele aumentou o tom do choro e eu quase gritei para que ele ficasse quieto. Não podíamos chamar a atenção. Ele chorava e dizia que deus não o aceitaria, que ele não foi um bom sujeito, que ele já havia matado alguém, e que suicidas vão para o inferno. A cada palavra dele eu ficava mais e mais nervoso. Religiosos de araque. O sujeito passa a vida inteira como um descrente e no final se transforma em um temente a deus… Se ainda fosse verdade, ainda era possível argumentar, mas no caso, ignorei.
“Ele estava com as mãos no rosto, aos prantos. Respirei fundo e consegui me acalmar um pouco. Raciocinei que se atirasse sobre as mãos dele, todo o meu plano cairia por terra. Deveria, ao menos, tirar as suas mãos. O que seria fácil. Falei que estava tudo bem, não precisava chorar. Ele, então, chorou mais ainda e começou a me agradecer. Aproximou-se e eu gritei para ele parar. Ele tomou um susto, parou de chorar e me olhou sem as mãos no rosto. Foi o necessário. Um tiro certeiro no meio da cara. A cabeça quase explodiu por completo. Sangue voou para todos os lados. Sujou todo o meu quarto, a minha roupa, o meu rosto. Abaixei-me ao lado dele e esfreguei a arma em sua mão, para que ela pegasse um pouco da pólvora. Depois, pousei a pistola perto do corpo.”


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