outubro
O silêncio entre os parágrafos pesava. Parecia que nunca mais se ouviria uma palavra. Somente a chuva lá fora que avançava madrugada adentro. Entretanto, o clima dentro daquele pequeno apartamento era quase de confidência. Não havia nervosismos, pareciam camaradas de eras passadas que se reencontravam e conversavam sobre o que fizeram nos últimos tempos. Todos estavam relaxados, recostados nos sofás, bebendo alguma coisa, deixando as palavras fluírem. Era assustador apenas quando os parágrafos acabavam. Voltava para o inesperado onde ninguém tinha controle completo da situação. Parecia que todos dependiam uns dos outros para que continuassem na mesma vibração. Xavier, só então, se dava conta de que a situação toda era por demais onírica.
“Em vez de me usar para o suicídio, por que não usar outro e escrever e descrever todos os passos? Colocar a ficção na realidade, sem papel, sem intermediários. Ser o escritor da vida alheia, à perfeição. Decidir o que faria, como viveria e, principalmente, quando morreria. Em resumo, queria ter um pouco do poder divino da vida e da morte. Todos os artistas carregam esse instinto nas suas produções. Eu queria levar isso ao extremo. Queria fazer da arte, a verdade. João foi meu primeiro experimento. De certa forma, posso falar sem nenhuma vaidade: deu certo.
“Peguei um mendigo e o transformei no protagonista de uma obra literária. Sabia todos os detalhes de sua vida, desde o cotidiano até o seu futuro. Como Deus, deixava-lhe com algum livre-arbítrio, mas ia cobrar-lhe com sua vida no meu juízo final. Ainda era mais benevolente que Deus porque a sua morte era combinada previamente e dava-lhe o direito de tirar a própria vida. Ele quis decidir o contrário. Mas, como Deus, tive que ser cruel e executar o seu destino.”
A chuva continuava incansavelmente. A penumbra dava um ar ainda mais misterioso para todas aquelas confissões desnecessárias, gratuitas.
“Depois, não precisei fazer mais nada. Já tinha alugado este apartamento aqui, bastava esperar as reações da imprensa para saber se o meu livro seria encontrado. Aconteceu o que aconteceu. Virei um sucesso, contudo mais pelo lado do escândalo que pelas qualidades literárias. Até mesmo os cadernos culturais caíram um pouco nessa história.
“O mais interessante era associar a minha vida ao livro. Encará-lo como uma história autobiográfica o tornou extremamente atraente. Espanto-me com o poder que o realismo tem até hoje. E com a fantasia de que o povo em geral nutre na existência da realidade crua ou simplesmente da verdade. É de uma inocência ímpar. Nunca cogitam a hipótese de haver sempre alguém por trás de cada história e esse escritor escolher a verdade que ele quer contar. Durante um tempo, logo depois do incidente com João, brincava com o fato de meu livro estar na lista dos mais vendidos em não-ficção. Outra belíssima jogada de minha mãe. Como seria quando descobrissem a verdade? Mudariam-me de lista? Sutilmente, foi o que aconteceu, aliás.
“Outro detalhe curioso é que houve resenhas assim que descobriram a farsa tirando o valor literário da obra. Ou seja, o livro só seria bom se ele fosse ‘verdadeiro’? Que louco. Como fui pensar que eu é que seria encarado como insano? Por sorte, alguns críticos sensatos admitiram que foram engabelados, e conseguiram analisar friamente o livro sobre os dois pontos-de-vista. E, felizmente, para a minha mãe, as vendas ainda não desceram de um patamar bem elevado. Pago-lhe, assim, todos os custos da minha vida.”


“queria ter um pouco do poder divino da vida e da morte”. Todos querem!!
Alguns fazem de tudo para conseguir. E, talvez, conseguem.
A questão é: por quanto tempo?
Até sexta-feira, certamente.
Putz! Boa resposta!