28 de
outubro

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Otávio, com o seu jeito calmo e seguro, oferece mais bebida. O escritor se vira para Clara e, carinhosamente, pergunta se ela pode cumprir com essa tarefa, só desta vez. Ela assente. Os dois homens ficam se encarando, Otávio com um sorriso de satisfação, Xavier um tanto quanto apreensivo por ter-se recordado novamente da sua real situação ali dentro. Otávio percebe que o seu interlocutor está nervoso e, ao invés de tentar relaxá-lo, apenas sugere que ainda não tinha contado nada.

- Foi mais ou menos por isso que eu decidi escrever o meu segundo livro grande. Não o chamo de romance porque creio que essa nomenclatura não faz muito sentido. Queria deixar clara a minha estética, meu modus operandi, minha temática. Pode parecer pretensioso, mas não é. Teria que fazer algo ainda mais ousado que se tornasse definitivo. Dessa vez, escolhi controlar a vida de um sujeito sem que ele soubesse. Seria mais complicado, mas nem por isso menos possível. Colocaria iscas para que ele pudesse se alimentar aos poucos, pensando que estava no caminho certo, quando, no máximo, estava caminhando na minha direção. Transformei-o na minha marionete, no meu títere. E o mais incrível: sem fios que denotassem a minha presença. E, claro, esse boneco que obedece as minhas vontades é você, Xavier.

A confusão mental piora. O corpo está cansado, os olhos ardendo. Xavier acha tudo um imenso absurdo. Repete mentalmente que é tudo mentira, mentira, mentira. Ele não poderia ter sido conduzido assim, tão facilmente. Não era idiota, não era um imbecil, sabia escolher o seu caminho, era óbvio. Fica nervoso, inquieto, o corpo esquenta, chega a bufar. Sente-se preso numa teia de aranha que quanto mais se mexe, mais se cola. As saídas para o problema se escurecem como se estivesse num quarto claro demais para ele poder enxergar a porta. Ele sente vontade de agarrar o pescoço do escritor. Sente vontade de se levantar e pegá-lo e lhe apertar até que ele pare de falar essas besteiras. Mas algo o prende ao sofá. Não tem forças para tomar nenhuma atitude, está com muito medo, acuado, preso. Lembra-se da arma. Agarra o cabo e o aperta com força. Retira-a vagarosamente do cinto, puxa o cão e deixa-a discreta.

Sem participações.... Ainda.

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