outubro
- Xavier, eu sei o que você está pensando. Não é exatamente isso. Você não é um primor de inteligência, mas está longe de ser um idiota completo. Para demonstrar como eu tenho apreço pelos meus personagens, eu posso te garantir que até respeitei o seu gosto por escrever. Respeitei até demais, talvez devesse ter cortado algo para parecer mais factível com o personagem. Agora não importa. A verdade é que, se houvesse uma escala de inteligência, você estaria na categoria “limitado”. Desculpe-me a franqueza, mas o momento pede isso. E não adianta falar nada. Eu que escolho as palavras a figurar nesta história. Elas já estão escritas, como o meu e o seu destino também já estão.
Ele escuta cada palavra e se enche de raiva. Cada vez mais.
- Admita, você é um pouco previsível. Desculpe-me rir, mas é inevitável. Sair do apartamento foi a parte mais fácil: sabia que aquele dia era a folga do porteiro da noite e o faxineiro sempre dorme quando faz esse turno. Tinha a chave da porta do condomínio, como todo mundo. Saí sem fazer barulho. As câmeras não têm teipe, a minha presença àquela hora não seria notada. Só se, por muito azar, alguém estivesse vendo o canal do prédio no momento exato que eu saísse. Conto com a sorte também, quem não?
“Por último, mas não por isso menos importante: você teve a audácia de pensar que Ana estava flertando com você? Desculpe-me, novamente, estar rindo, mas isso é tão inimaginável. Ela é uma atriz, você tinha conhecimento disso. E, saber que tudo foi planejado e você acreditou sem nenhum juízo… Que tolo…”
A cada palavra, Xavier se mexe na cadeira, como se tivesse recebido mais um golpe. Sentia-se como um pugilista no final da luta, sem muitas forças para revidar, apenas apanhando e esperando o corpo cair. A raiva cresce dentro de si. Sente o rosto enrubescer, as mãos gelarem, o corpo suar nervoso.
- Entenda, eu poderia guiar qualquer um. Você, Xavier, tem que se sentir um privilegiado. Bem, poderia controlar quase qualquer um. Admito que você me ajudou bastante ao ser um completo fiasco como investigador. E, também, por ser corrupto. Dois pontos para você. Assim, era só eu montar as pistas para que você caísse por completo nelas. Como o dia que você viu Ana na rua. Nós sabíamos onde você morava e acompanhávamos o seu cotidiano sem que você percebesse. Decidimos dar um pouco de esperança, para que você não desistisse. Tínhamos que cumprir com a nossa parte. Depois, ficamos acompanhando seus passos. Parabéns, você realmente é durão. Passou um tempo absurdo naquele carro, sem sair para nada. Ficou um traste, mas conseguiu o que se propôs, me encontrar.
“Por que não levantar agora e estourar os miolos dele?”, pensa Xavier. “Por que não acabar com isso tudo e sair daqui? Por que não provar para ele que eu sou o dono da minha vida? Onde é que essa história vai acabar?”
- Eu montava uma arapuca, e você ia atrás. Eu sabia muito bem como é que você ia agir. Tenho o distanciamento necessário para decodificá-lo. Hoje, conheço-o mais que qualquer um, mais até que você. E, você se saiu muito bem no papel principal. Um personagem diferente que foge de muitos clichês: um investigador incompetente; um cara que decidiu ser policial. Pois bem, não muitos. De qualquer maneira, cumpriu à risca a sua parte. E eu, bem, deixando um pouco a humildade de lado, também acho que fiz razoavelmente a minha. Tome, vou arremessá-lo. Esse é o seu livro. A nossa obra. Você vai achá-lo bem familiar.
“AUTOASSASSINATO” – o título. Um calhamaço de papel encadernado. Exatamente igual ao livro que ele tinha encontrado no apartamento de Otávio que pegou fogo. Igual ao livro que ele tinha lido. Começa a folhear, aleatoriamente. Lê uma frase qualquer: “Xavier está com a cabeça longe. Está impressionado com aquela menina transparente de queixo baixo…” “Xavier” é o nome do policial. “Ele nem mudou…”, pensa. No livro, o detetive “Carlos Xavier” deve investigar o possível suicídio de um sujeito que almeja ser escritor, cujo nome é “Otávio”. “Caralho”, pensa. Dá outra folheada rápida. “Já em casa, Xavier pega o livro de Otávio, junto com uma garrafa, e começa a ler. É a história de vida de Otávio Oliveira de Carvalho, além de suas elucubrações, viagens, anotações esparsas, pequenos poemas em verso livre.” “Caralho”, pensa de novo.
Há a mãe que defende a tese do suicídio, a namorada que se aproxima, o livro, as incertezas, a descoberta da farsa, Xavier afastado do caso, que fica perdido, encontra o escritor por acaso, vai à casa dele… O livro era a cópia dos acontecimentos que tinha vivido nos últimos meses. Xavier fica ainda mais atordoado, a cabeça dói ininterruptamente, o raciocínio está obscuro, sente falta de ar, o lugar está abafado, a visão escurece, a arma quase cai no chão.


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