outubro
- Um detalhe que eu devo contar para que tudo fique ainda mais claro e demonstre a minha maneira de trabalhar: eu escrevia tudo isso antes de acontecer. Ou seja, eu controlei o seu destino desde o início para que você seguisse a minha trilha. Como comprovação, está aí o meu discurso, este que eu acabei de pronunciar – até mesmo as digressões, tudo planejado – e o final, que ainda está por vir e que eu sei como vavi ser.
Xavier se levanta e aponta a arma para Otávio. A raiva quer sair por todos os poros de Xavier. Quer fazer Otávio parar de falar. Quer acabar com tudo, quer ir embora. Seu braço treme, os olhos estão nublados, a pele suada. Está com febre. O escritor fica impassível, não demonstra nenhuma emoção. Clara não se mexe, está no sofá também parada, completamente fria e distante de tudo. Bebe sua bebida, como se fosse apenas uma espectadora de uma peça particular. Ele não repara na menina, só consegue ver o homem que controlou a sua vida nos últimos meses, que a transformou numa confusão para nunca mais ser a mesma. Otávio era o culpado, queria acabar com ele, queria vingança, queria sua liberdade de volta.
- O incrível, para mim, é que até nos pormenores você me obedece. Realmente decifrei toda a sua psicologia. Ha-ha. Sei exatamente cada movimento que você vai dar. Por exemplo, sabia que você iria se levantar e apontar a arma para mim. E ao final, sei que você vai me matar. Só assim, inclusive, comprovo a minha ideia de que a arte é superior à vida comum.
“E agora? Mato ou não mato?”, se pergunta Xavier, “sigo a minha vontade ou a dele? A dele é a minha? Temos a mesma vontade? Quem controla? Como acabar com isso? Como fugir, escapar dessa encruzilhada? Se apertar o gatilho tudo termina, ele vence e eu também. Aperto ou não aperto?”
Os dois começam a gritar:
- Se você apertar o gatilho, tudo termina, você vence e eu também. Se vinga por completo de mim: Vamos, atire! Atire!
- Não!
- Pare de relutar!
- Não! Eu não pertenço a você!
- Atire!
- Eu não obedeço a você!
- Atire!
- Eu decido!


Eu, se fosse o Xavier nessa hora, ia ler o último capítulo pra ver como termina…
E escreveria um final diferente.
Acho que tô numa fase rebelde!